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sábado, 12 de junho de 2010

Crónicas de uma rapariga gira [2ª Série] 11ª

Dei-me conta recentemente que as pessoas são capazes de muitas coisas para manterem determinadas relações. Dei-me conta que preferem ficar com alguém a ficarem sozinhas. Dei-me conta que preferem ser traídas do que a outra pessoa ir embora antes de o fazerem. Dei-me conta que os filhos servem de desculpa para todas as perdas de auto-estima.

Talvez porque sempre defendi que as pessoas devem manter a dignidade nas relações, custa-me entender que relações doentias prevaleçam em vez de se dar oportunidade de encontrar uma relação saudável, onde a auto-estima de um ou do outro estão sempre a ser postas em causa. Com certeza que admito as dificuldades em abandonar estas relações doentes, intermitentes, de poder, em que cada um está a tentar manipular o outro. Admito, por experiência própria, que demora muito tempo a encontrar o norte quando se trata de abandonar uma relação em que a manipulação se confunde com amor, porque parece que é abandonar relações ainda a meio do amor e, que talvez se ficarmos nela apenas mais um mês, vamos remediar todas as nossas diferenças. E os meses acumulam-se em anos e, quanto mais tempo passa, menos energia temos para pensar que o amor é uma coisa boa. O amor é para nos fazer crescer e ultrapassarmo-nos. Não é suposto estarmos em sofrimento intermitente por amor a alguém. Isso é uma manipulação do que é amor.

Como se encaixa uma mulher ligar a outra a dizer para a última deixar de falar com o seu "homem" para proteger a sua relação? Não há aqui uma inversão de valores? O seu "homem" não deveria ser livre de falar com quisesse para poder escolher estar com ela? Como se compreende relações que assentam neste tipo de confiança? Como se encaixam "homens" comprometidos que, provavelmente quando falam com outras mulheres estão há procura de qualquer coisa que não têm dentro deles? E, para terminar, como é que uma mulher escolhe viver com estes fantasmas em vez de viver sozinha?*

* Estas questões adaptam-se para homens e mulheres de ambos os lados da moeda da relação amorosa.




sábado, 15 de maio de 2010

Crónica de uma rapariga gira [2ª Série] 10ª

Num livro que li há alguns meses, falava-se de dependência, de decidir que rumo queremos dar à nossa vida e, por fim, talvez aquilo que todos desejamos, com quem queremos partilhar esse caminho. Ao que parece, enquanto somos dependentes e não sabemos que caminho queremos tomar, torna-se muito complicado escolher os companheiros de viagem. Tudo isto pode parecer óbvio e resultado do acaso, mas na realidade depende apenas de nós mesmos. Não há nenhum destino que nos faz ser mais ou menos independentes. Assim como não existe o destino que nos marca o caminho que vamos fazer ao longo dos nossos dias. Há circunstâncias que nos condicionam e acasos que podem oou não ser oportunidades e, na pior das hipóteses estamos sempre a fazer escolhas. Como nem sempre gostamos das escolhas que nos responsabilizam, deixamos que sejam outros a escolher por nós. Como nem sempre sabemos o que queremos do nosso caminho fazemos de conta que as situações nos vão aparecendo. É confortável assim. Menos responsabilização pelas escolhas.

Quantas vezes não contei eu esta mesma história. Quantas vezes não deixei que me escolhessem, pensando que não tinha alternativa. Quantas não repeti a mim mesma que não queria estar na situação em que estava e que a responsabilidade era do mundo há minha volta. São aqueles discursos da sorte e do azar, como se não fossemos donos do livre arbítrio.

E então, como sabemos quem queremos no nosso caminho? Qual a nossa responsabilidade nesta escolha?

Desde já,fica o aviso que não podemos fazer nada para que alguém nos ame, nem para que alguém deixe de nos amar. E a história do "Para sempre felizes"? Também não é completamente verdade, porque às vezes as coisas acabam. Desengane-se quem pensa que sim. Não há explicação, mas a realidade é que isso nos foge radicalmente ao controlo. É apenas magia. Por outro lado, amarmos alguém no passado, não nos garante nem o presente, nem o futuro. Por vezes temos de deixar o passado, como a aranha renasce e deixa para trás o que não serve. Temos de nos soltar para que entrem as novas pessoas na nossa vida.

Para escolhermos os companheiros de viagem há três aspectos fundamentais: o amor, a atracção e a confiança. Amamos alguém quando essa pessoa é importante para nós e nos preocupamos com o seu bem estar. Além disso, é importante sentirmo-nos atraídos por essa pessoa, gostar de como ela é e fala, de como se mexe e do seu aspecto, de como se comporta e como pensa. E, por fim, temos de confiar nela. Saber que existe confiança na relação com essa pessoa e, que apesar de podermos mentir escolhemos assumir a verdade do que pensamos ou fazemos. Por umas destas, não sentimos atracção física e por isso são os amigos-companheiros, enquanto que, por outra qualquer pessoa sentimos, e essa será o nosso amante-companheiro.

Ainda ando aqui às voltas com todas estas questões. Quando é que estou a ser dependente? Para onde quero ir? Que caminho vou percorrer? E talvez aquela em que estou mais centrada: quem estará a caminhar ao meu lado?

domingo, 11 de abril de 2010

Crónicas de uma rapariga gira [2ª Série] 9ª

Viajar.
O que é viajar? Sair daqui do meu sofá para ir ao café da esquina? Sair de casa para ir trabalhar? Navegar na internet? As memórias do que foram as nossas experiências? Apanhar o avião? Deixar de estar perto dos que amamos? Sonhar com onde gostaríamos de estar? Perder a noção da realidade? Estar deitada a ver um filme? Mas afinal o que é viajar?

Lembro-me de viajar a ouvir sempre a mesma música. Lembro-me do tempo das K7's em que gravava a mesma música várias vezes de um lado e do outro, para não ter de puxar atrás. Lembro-me de várias viagens Porto-Lisboa a ouvir Let it down dos Radiohead. Lembro-me que viajava muito mais do que os quilómetros que o meu carro fazia. Por exemplo, agora estou a ouvir essa mesma música e as viagens que consigo fazer são imensas. Recuei até um concerto de Wim Mertens que assisti na primeira fila, pela sorte dos que arriscam em cima dos acontecimentos. Também me fez lembrar como as oportunidades quando não aproveitadas se vão embora sem dizer adeus quando não aproveitadas. Esta é daquelas músicas com uma capacidade de provocar viagens incríveis. Como daquele que não compreendia como é que o meu sobrenome não era de uma família conhecida. Tantas viagens que não me apetece partilhar.

Será que as viagens desta música são menos viagens do que os kms que farei até às Honduras? Para mim as músicas fazem-me viajar pelo passado, pelo futuro e, ainda ajudam a memorizar o futuro. Não sei bem se viajo mais de avião ou a ouvir música. É por esse motivo que gosto de concertos. Não é pela qualidade da composição, mas simplesmente pela qualidade da viagem. Para alguns as drogas têm o mesmo efeito. Para mim, basta-me a música. Nem preciso de aviões para viajar. Contudo, não sei se é boa ideia viajar tão activamente ao som de uma música que me trás tantas memórias e recordações de passageira pelas experiências da alma.

Viajar? Afinal será preciso sair de casa para viajar?



segunda-feira, 5 de abril de 2010

Crónica de uma rapariga gira [2ª série] 8ª

Nunca tive tantas conversas intimas, sobre a minha vida amorosa, dentro de táxis, como nesta viagem à América Latina. Diria que mal me viam, preparavam de imediato as perguntas a fazer quando estivesse dentro do carro e não pudesse sair. Se namoro, se não namoro, o que me aconteceu para que não ser casada, o que pensava eu sobre o futuro, como reagiam os homens a mim, o que é que eu pensava ou fazia que podia estar a influenciar negativamente a minha possibilidade de casar, e outras mais que não me recordo. Sempre à volta deste tópico. Não consegui perceber se era uma forma de flirtarem ou se traduz a preocupação generalizada pelas relações, pelo amor, pela companhia ou pelo sexo. Com uns, a conversa acabava com alguma rapidez. No entanto, com um senhor de idade já avançada, acabei a contar a minha história toda e a ouvir sábios conselhos de como era o universo masculino. Outro, acabou ele, de táxi parado, em frente ao hotel, a contar-me o casamento dele e o que pensava sobre as relações amorosas.




Por muito que leia, que converse, que ouça, acho que vou ter sempre dificuldade em entender as relações de intimidade. Há para todos os gostos e cores. Relações de sucesso, daquelas que eu gostava de ter, tal como já disse em tempos, parece-me que são aquelas iniciadas depois dos 35, o que me leva a crer que a experiência de vida, as relações falhadas e, a maturidade, fazem com as relações funcionem melhor. Relações conflituosas, nas quais as pessoas se mantêm, apesar do sofrimento que infligem ao outro e/ ou a si mesmas. Relações que parecem correr bem, mas em que um dos protagonistas procuram relações extra-conjugais. Pessoas que têm relações de intimidade, que não vivem felizes com isso e, querem mudar isso para estarem sós. Pessoas sós, que sentem a falta de contacto humano e físico que, sonham com encontrar a sua parelha ideal. Ouço poucas pessoas dizerem que estão felizes perante o que têm e, também não ouço assim tantas como isso dizerem que vão mudar para se sentirem mais felizes. Ouço queixumes. Ouço desabafos. Vejo poucas soluções e acções.



Concluo que esta preocupação constante que fez erguer palácios de Amor continua a ser preocupação constante na vida de homens e mulheres. Parece-me que sabemos muito pouco sobre isto. Também me parece que não fomos feitos para estar sozinhos e, quando estamos, só nos queremos fundir em uma pessoa para nos sentirmos completos. Temos, contudo, dificuldade em fazer as coisas funcionarem e, em encontrar parceiros ajustados às nossas ambições.



“-Tenho a certeza que tem muitos homens que querem estar consigo. Não vai ter dificuldade nenhuma em ultrapassar isto!” – E daqui concluí que quantidade não significa qualidade e que neste momento prefiro qualidade.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Crónicas de uma rapariga gira [2º Série] 7ª

Nunca tivemos acessíveis tantas formas de comunicação e, nunca senti que comunicamos tão ineficazmente. São os emails e os chats, é o messenger, são as redes sociais na internet, são os telemóveis. Tudo ao nosso serviço para falarmos com quem é importante, com quem não é importante, com quem conhecemos e com quem não conhecemos. Podemos estar sempre acessíveis a toda a gente. Podemos mandar mensagens, se não queremos falar directamente. Podemos falar nos chats se não queremos olhar os outros nos olhos. Existem os símbolos para satisfazer as necessidades de expressão emocional. Tudo ao alcance dos nossos dedos. Tudo ao alcance das nossas necessidades.

Podem começar-se relações de amor sem olharmos para a alma. Terminam-se relações sem termos oportunidade de ver para além do que as palavras nos dizem. É como se fosse a fast-comunication. Tudo rápido. Tudo simples.

Pelo caminho ficaram as longas conversas, as lágrimas, um último abraço para reconfortar quem fica a sentir-se abandonado. Pelo caminho ficam os silêncios quando a garganta fica seca e num nó por termos de dizer o que nos custa. Pelo caminho fica uma intimidade em que o toque, o olhar complementa aquilo que se tem urgência em dizer. Desta forma, sinto que fica sempre muita coisa por dizer.

Numa relação que terminei recentemente, além da dor de ter de terminar um relacionamento que me dava coisas boas, e de perder alguém, foi a dor de ter sido por chat. Não conversamos a olhar um para o outro. Não sentimos a intensidade do abraço que encerra. Foram palavras vazias. Nem sempre entendidas. Nem sempre com a fluência certa. Nem sempre no momento adequado. Fiquei com o sabor amargo de que se podem terminar relações de anos, apenas por escrito, sem olharmos no fundo da alma e sentirmos que chegou ao fim.


sábado, 13 de fevereiro de 2010

Crónicas de uma rapariga gira [2º Série] 6ª

Guardo uma crença há anos. A crença de que é possível inventarem-se novos tipos de relações de amor. Quando falo aqui em relação de amor, refiro-me à relação entre duas pessoas que partilham entre várias outras coisas uma relação física. Todas as nossas relações de intimidade são obviamente de amor e, o que habitualmente fazemos para as diferenciar é dizer a todas essas pessoas que gostamos delas e, a uma em especial que a amamos. É por este motivo que lhes chamo relação de amor.

Por diversas vezes, tentei explicar a minha crença sobre os novos tipos de relações, mas as pessoas em geral acabam sempre a catalogar o que eu digo sob os nomes que conhecem: namoro, casamento e união de facto. Eu acredito em relações sem nome, mas com emoções e sentimentos fortes. Com piada observo cada vez mais pessoas que encontram formas alternativas de estar numa relação de amor, o que faz com que fortaleça a minha crença. Apesar disso, reconheço que a falta de nomes para essas novas formas de relação nos dificulta a aceitação de que existem e são possíveis. É incrível a necessidade que temos de rótulos e como se recusa o que não é nomeável.

As relações conforme as conhecemos nos nossos pais, não me parecem possível para mais de metade das pessoas da geração que nasceu nos anos 70. No entanto, está na natureza as pessoas quererem ter uma relação de intimidade exclusiva, porque lhes dá um suporte que de outra forma é sempre ténue. Por este motivo continuam a tentar as relações de acordo com os velhos padrões e, muitas das vezes a sentirem que estão a falhar. Somos uma geração independente, com várias possibilidades, que queremos viajar, somos autónomos, procuramos sentirmo-nos bem, preocupamo-nos com o corpo, queremos ter experiências de todos os tipos, queremos saber mais, temos acesso a muita informação, temos nos amigos uma parte da família,  somos menos religiosos e, poderia continuar por aí fora na caracterização da geração do 25 de Abril. Com tudo isto, muitas pessoas têm receio que o compromisso lhes retire isso. Compreende-se, porque as relações dos nossos pais eram pouco caraterizadas por todas estas características.

Ora, se queremos manter tudo o que temos à disposição, mas queremos ter relações de amor, temos de ser criativos. Inventar novas formas de estar nas relações de amor. Pode viver-se com alguém e não querer ter filhos. Pode nunca viver-se com alguém, mas ter uma relação de amor entre duas casas com essa pessoa especial. Pode viver-se em países diferentes e manter uma relação de amor, com ou sem filhos. Pode não ser namorado/a nem esposo/a e ser a pessoa amada. Algumas pessoas contestam que se é assim não sobra nada para manter uma relação de amor. Acho que não entendem que sobram muitas coisas. Sobra o companheirismo, a segurança, a confiança, a partilha, o desejo e o podermos ser nós próprios. Para mim, estas sobras são as verdadeiramente importantes. E são estas que têm de ser alimentadas e mantidas em vez do nome namorados ou casados ou pais. É preciso muito investimento para manter uma relação de amor acente nestes 6 pilares. É preciso particar-se muito a honestidade. É preciso dedicação e estar presente. Nestas relações sem nome, é ainda mais importante mostrar-se com actos o amor pela outra pessoa. Não esconder a relação, porque as novas relações de amor são, também, aquelas que partilhamos com quem nos rodeia.

Uma das coisas que algumas pessoas acusavam a minha crença é de que esta se tratava de pseudo-intimidade, de relações clandestinas, de relações em que cada um vive para o seu lado. Parece uma incapacidade de olhar para o diferente, de ver para além dos nomes que dão às coisas.


sábado, 6 de fevereiro de 2010

Crónicas de uma rapariga gira [2º Série] 5ª

Há experiências que as pessoas preferem fazer de conta que nunca aconteceram. Dão-lhes uma importância mínima. Ignoram-nas. Fecham-nas algures num pedacinho do quarto das recordações. Esquecem-se que se é o resultado das experiências que sevão tendo ao longo da vida. E é por isso que, por vezes, se é apanhado de surpresa quando alguma dessas coisas que se pensava ter arrumado bem no quarto das recordações volta a aparecer no meio de uma conversa ou de uma vivência.

São ínumeras as experiências negativas que se arruma nesse espaço. É a forma de se manter a sanidade mental quando resolver parece impossível. Como é óbvio isto é um mecanismo bom, quando se volta mais tarde ao quarto e se arruma a questão numa prateleira com identificação. No entanto, a maioria das vezes fica ali pousada no chão e não se volta a fazer nada com essa experiência. Posso, quase, afirmar que só se volta a esse assunto quando ele é impeditivo de se ser feliz em algum aspecto que é valorizado.

Lembro-me de uma rapariga que conheci, em tempos , que com a sua experiência de ter sido abusada, tinha desenvolvido uma relação com o seu próprio corpo, como se este não fosse importante. Como se o corpo e o sexo fossem aspectos menores quando comparados com o dar a conhecer os gostos, as manias, os desejos. Por esse motivo, se dava o corpo, guardava a alma. E se desse a alma, guardava o corpo. Nunca conseguia misturar as duas numa mesma relação. Era como se fossem duas coisas separadas e, ora optava por uma, ora optava pela outra. Excepcionalmente conseguiu juntar ambas na mesma relação, apesar de aparentemente ter mantido a dualidade. Acho que foi quando a confrontei com isso que percebeu que mantinha esta experiência no chão do quarto das recordações.  

Falamos algumas vezes sobre o assunto. Sabia que ela precisava de lá voltar e refazer a experiência. Não sei bem se ela voltou ou não ao quarto das recordações para arrumar as experiências na prateleira e deixar de pensar que se desvalorizasse a importância que dava ao corpo resolveria qualquer abuso que lhe fizessem. Não tenho a certeza se deixou se se sentir culpada. Tão pouco sei se conseguiu algum dia sentir-se completa. Por ela, espero que tenha voltado ao quarto das recordações, tantas vezes, quantas as necessárias para integrar o corpo com a alma, sem se sentir desprotegida, nem usada.

É por isso que insisto muitas vezes em não pousar as coisas no chão. Em integrar as experiências até terem um´nome numa das prateleiras. Não quero ser desintegrada em pequenas peças que não sei ou que não tenho vontade de arrumar. Tenho ainda algumas coisas no chão. Coisas que vou ter de limpar, deitar fora e ficar apenas com o essencial para ter espaço nas prateleiras, para as experiências que estão aqui à espera de terem um espaço especial. Pode custar, mas este é um quarto que se quer bem arrumado para dar sentido ao presente.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Crónica de uma rapariga gira [2ª série] 4ª

Todos temos uma direcção ou um rumo que seguimos. É isso que nos faz andar. Motiva-nos no caminho de viver. Acho que a maioria nem pensa nisso. Simplesmente segue-o e sente-se feliz sem ter de chamar nomes às coisas ou sem ter de explicar porque o segue. Há algumas pessoas que se sentem quase sempre infelizes e vivem atrás de coisas, que quando obtêm continuam a sentir-se tal qual antes e, acham que precisam de outra coisa qualquer. E há ainda, os outros, os que sabem que isso é importante, mas têm de se esforçar para o perceber.

Conheço bem o último grupo de pessoas. São aquelas com quem mais convivo, porque precisam de espelhos para verem além do aparente. Precisam de falar sobre isto para tentarem dar uma resposta a elas mesmas. Posso nem sempre ser o melhor espelho, mas esforço-me. Por vezes, caio na tentação de as ajudar e de me tornar num espelho mágico. No entanto, é um perigo, porque este é o caminho mais individual que conheço. Cada um tem o seu rumo, que não é pior nem melhor que nenhum outro. É o seu. Por vezes, as pessoas procuram espelhos mágicos, porque querem seguir o rumo do outro. Querem-se desresponsabilizar das suas decisões ou, têm-se em tão má conta que acreditam que o outro sabe mais do que elas. A felicidade é saber que cada um tem em si o seu caminho de felicidade. Aceitar isto já é um passo para o encontrar.

O rumo dá enquadramento aos nossos desejos. As acções motivadas por estes desejos fazem-nos percorrer um pouco mais na nossa direcção. Sempre que cada pessoa escolhe agir de acordo com o que deseja para si, dá um passo em frente para se sentir mais livre.

Convém lembrar que agir de acordo com os desejos pode implicar sofrimentos e a dor do que não se escolheu. É como ir a uma livraria e só poder escolher um livro para ler. Fica a dor de todos os que não vamos poder ler, mas a vida é mesmo isto. Escolhas para se manter no rumo. E isto, lembra-me que existem infindáveis caminhos para o mesmo rumo. O livro amarelo apesar de diferente do roxo, continua a permitir-me seguir o meu rumo. Desde que aceite que podemos obter o que queremos e, se não conseguirmos, podemos esquecer ou substituir. Tudo é melhor do que ficar parado a matutar no que não obtive. É quase como ter uma pedra e não poder passar, apesar de ao lado estarem 3 metros de estrada onde o carro pode continuar a andar.

Ser feliz é quase sempre o que as pessoas querem. Nisso somos muito semelhantes. O que difere é o que determina a felicidade de cada um. Para mim, por exemplo, é sentir-me conectada. Seja com a família, os amigos, o amante, o trabalho ou os passatempos. O comprometimento nas relações faz-me sentir feliz. Se trabalho muito numa coisa que me sinto ligada, estou a cumprir o meu objectivo. Se escolho alguns amigos entre as muitas pessoas que conheço e me dedico a partilhar com eles, também. Se abandono uma expectativa para poder encontrar o amor real, sinto-me feliz por contribuir para o meu rumo. Se me comprometo com aquilo com que me sinto conectada, vou estar a contribuir para avançar um pouco mais no meu rumo.

Não faço ideia de onde chegarei. Mas a porta no fim do corredor será o mais importante?

sábado, 23 de janeiro de 2010

Crónicas de uma rapariga gira [2ª série] 3ª

Parece que a partir de certa idade há questões recorrentes que nem sempre são muito confortáveis. Parece-me uma questão de organização social, de cumprimento de papéis na sociedade. Até uma certa idade podemos não ser casados nem ter filhos. No entanto, depois dos 30 e tais, começa a ser um factor que nem sempre é aceitável. É o comentário como que se falasse de um personagem estranho: "Ela disse que não quer ter filhos!". Isto gera um número enorme de questões: Que mulher é que pode dizer isso? Como é que ela se atreve a não cumprir os designíos da espécie? E o pior é o que fica nas entrelinhas da afirmação. Isso é mesmo o que incomoda. O que não é dito. A outra questão que preocupa a nossa sociedade de cariz judaico-cristão, é as pessoas não serem casadas. As perguntas sobre o "Quando te casas?". E outra vez as entrelinhas. E outra vez o que não é dito.

Às vezes, até parece que mulheres que não são casadas ou não têm filhos têm uma espécie de handicap no Bilhete de Identidade. Se for divorciada e com filhos, é vista como uma mulher que teve azar com o companheiro, mas corajosa por cuidar da prole. Já cumpriu o papel. No entanto, solteira sem filhos com os tais 30 e tais, ou é devassa, ou é esquisita, ou não se contenta com nada, ou só quer coisas fugazes ou então é lésbica Tenta-se por tudo fazer pressão para perceber de qual as hipóteses se trata. Para não falar da quantidade de situações que se põe de parte estas mulheres que não são completas.

É claro que como estas mulheres são cada vez mais comuns. Como é óbvio, começa-se a aceitar com mais naturalidade que existam e já existem pessoas que até encaram isto sem se chocarem. No entanto, continuo a sentir esta pressão, estas perguntas, as entrelinhas que tentam adivinhar qual destas hipóteses se adapta. Até amigos mais distantes fazem isso. Aparecem os  "És muito difícil de contentar" ou "Optaste pela carreira, foi?".

Quando é que percebem que, este pode não ser o caminho de algumas das mulheres do mundo? E se deixam de chocar com essa escolha? Afinal não é a possibilidade de escolher caminhos que caracteriza a liberdade? É que se não é, eu estou confusa nas definições que faço de liberdade e escolhas.

Quando é que pensarão que em determinados momentos da vida de uma mulher, por este ou aquele motivo, que falarei noutra altura, pode estar-se sozinha, pode não se ter tido envolvimentos com homens-anti-compromisso? E, que o caminho destas mulheres é igual ao de tantas outras, mas simplesmente as opções que foram fazendo as afastou do caminho do casamento e dos filhos, apesar de serem o que querem?

Gostava que se aceitasse melhor a liberdade de escolha de cada um: quer seja uma escolha de não querer trilhar determinados caminhos, quer seja o de escolher um caminho, mas com opções que foram afastando do principal objectivo. Acho que demonstrava mais humanidade pelo outro. Acho que seria também uma questão de respeito pela diferença do que achamos que deve ser.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Crónicas de uma rapariga gira [2ª série] 2ª

Nos dias de chuva, enquanto chove, com a água a bater lá fora na rua, fico a pensar naquilo de que não quero separar-me.

Li ínumeras vezes que era preciso saber perder, porque inevitavelmente, ao longo da vida separámo-nos de coisas e pessoas de que gostamos e que pensamos que pertencem para sempre ao nosso quotidiano. Apesar de saber disso, nunca me convenci dessa verdade e, tentei sempre acumular tudo, para não perder, nada. Não me convenço que o caminho se faz com umas pessoas que acabam por parar numa paragem de autocarro, para seguirem outra linha. Quando isso acontece, sinto-me abandonada. Sinto que falhei com essa pessoa, porque não a mantive ao meu lado. Essencialmente, não suporto a ideia de perder a minha vida com essa pessoa.

É claro que também sofro quando perco coisas, rotinas ou trabalhos, mas o que mais me custa é perder pessoas. Deixá-las seguir a vida ou a morte delas sem mim. Quando isso acontece, tendo a ficar agarrada à memória de como era a minha vida quando essa pessoa fazia parte delas e, choro, como se a dor me mantivesse presa a quem perdi.

Tenho pensado muito sobre isto, porque parece-me que se é inevitável ter de deixar as pessoas seguirem a sua linha, vale mais aprender a não querer ficar a segurar isso por fios imaginários que me fazem não seguir a minha própria linha. Faz-me só ficar só, sentada a ver passar os autocarros e sem me decidir a apanhar nenhum. Pode ficar-se com as memórias, desde que estas não turvem a olhos a ponto de não saber para onde queremos ir. Para evitar isso, as memórias devem ter um pedacinho muito pequenino da nossa vida.

Estas ideias perseguem-me como cada raio de sol ou como cada gota de chuva destes últimos dias. Quero aprender a seguir a minha linha mesmo quando sofro perdas irremediáveis e dolorosas. Existem tantas pessoas no mundo que seguem a mesma linha que eu posso escolher, que é inútil ficar parado a pensar em quem escolheu outra.

O meu "Mr. Big" está noutra linha. Após tantos anos a esforçar-me por tentar seguir no mesmo sentido, percebi que íamos para lados opostos. Tentei ajustar-me. Fazer compassos de espera ao meu próprio sentido, só para poder seguir a seu lado. Custou-me muito tomar a decisão de parar na paragem e esperar pelo autocarro que queria entrar. Custou-me olhar para trás e dizer-lhe adeus, de tal forma que de vez em quando até penso que me enganei na linha e, que tenho de voltar para trás, para o local onde já fui feliz. A verdade é que, se me enganei foi em pensar que podia alterar o sentido das coisas. Para mim, sentir amor, sentir amizade, sentir-me fisicamente atraída, são factores que me fazem querer estar com uma pessoa, tê-la ao meu lado, fazer planos com ela, partilhar a minha existência na maioria dos momento. Por ele, eu senti isso. Ele era não só o meu melhor amigo, como também era quem eu queria como companheiro de viagem. Para ele, eu era a melhor amiga, com quem cometeu o erro de se envolver fisicamente apenas por se sentir atraído. São duas linhas de pensamento diferentes. Não nos faziam seguir no mesmo sentido. Fazia-me sofrer porque ele nunca era o companheiro que eu queria e, faziam-no sofrer, porque eu nunca era só amiga e cobrava-lhe o que queria. Nos filmes, os "Mr. Big" apercebem-se, bem no final, que não conseguem viver sem aquela mulher que sempre amaram. Na vida real, um deles ou dois acabam por pôr fim e afastam-se, cada um para a sua linha de pensamento.

Sou agora um vulto no autocarro, que já não vê o lugar onde foi feliz, mas com os olhos turvos de água, sem conseguir ainda ver a beleza do caminho que de certeza esconde segredos tão admiráveis, como aquela pessoa que acabou por ser fiel ao caminho que sempre disse querer.

Não posso realmente mudar o rumo dos outros, mas sou responsável por fazer os possíveis por seguir o meu. Afaste-me ele, de quem me afastar.



sábado, 9 de janeiro de 2010

Crónicas de uma rapariga gira # 2ª série [1º]

Há tempos estava a ler uma reportagem sobre aulas de Strip e, fiquei admirada com o que ainda se escreve sobre este tipo de coisas. A jornalista pedia por favor para a professora entrevistada não dizer que tinha alunas da idade da sua mãe, pois não aguentava imaginar a sua própria mãe a fazê-lo. Tive de voltar atrás para perceber se estava a ler alguma coisa sobre a dança da fraude, ou a dança da morte ou outra coisa qualquer, que não gostaria de imaginar a minha mãe a aprender. Afinal, ainda estava a ler sobre aulas de dança de strip. Não sei bem que interpretação estava a jornalista a fazer dessas aulas para escrever de uma forma tão chocada. Resolvi que precisava de escrever sobre o assunto, para evitar que alguém me diga coisas do género sobre as minhas práticas de dança.

A Dança do Ventre ou a Strip são danças muito sensuais, mas não significa que quem as pratica seja aspirante a prosstituta ou devassa. É claro que pode haver aspirantes a prostitutas ou devassas que queiram aprender a dançar e, mesmo que assim seja, não se pode conotar aprendê-las com uma coisa maligna. As prostitutas e devassas são uma realidade tão antiga e tão digna quanto qualquer outra realidade. É claro que o falso pudismo provoca reacções hipócritas. Até o Marco Paulo é mais sensato quando canta "Uma lady na mesa, uma louca na cama, na maior safadeza". No entanto, há muita gente que prefere fazer de conta que é sempre uma lady, na mesa e na cama. Mulheres com receio de não serem ladies e, homens que que as procuram. Claro que devem ser estes que alimentam a indústria da prostituição. 

Eu aprendo dança do ventre há anos e desde há um ano que me juntei a aulas de strip. Para aqueles que estão agora a imaginar a utilidade destas aprendizagens, vou ajudar. Gosto imenso de fazer as aulas, porque saio de lá leve e com uma sensação de bem estar que não encontro facilmente. Além disso, é verdade, sinto-me poderosa depois das aulas e, como sabem, isso faz muito bem à auto-estima de qualquer um. Curiosamente só dancei uma vez dança do ventre para um grupo de amigos, em minha casa. Foi divertido. Para eles e para mim. Curiosamente nunca dancei para nunhum homem. Nunca usei nada do que aprendi nas aulas como arma de sedução. Nem me sinto mais ou menos devassa por ter estas aulas. Claro que é verdade, que em tempos imaginei noites temáticas para o meu "Mr Big", porque no amor gostamos de surpreender, de inovar e de atrair. É benéfico, porque se chama dar vida às noites rotineiras. Contudo, e, porque nem tudo acontece como sonhamos, nunca tive as oportunidades de o fazer. Acho que continuo a guardar as armas da atracção para quem vier a amar.



segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Crónicas de uma rapariga gira # 2ª série [Prólogo]

Em tempos, um dos atractivos do blog www.oscaracoisdamarina.blogspot.com foram estas crónicas. Escrevi umas 70 e, quando achei o conceito desgastado, parei. Um destes dias, vão poder lê-las aqui em PDF, porque estou a recuperá-las.

Se não aguentarem o tempo que vou precisar para rever os textos, procurem no outro blog, mais ou menos a partir de Abril de 2004.

A diferença é que já não tenho 30 anos. Deixei de ter o "meu" Mister Big, porque como isto é a vida real, ele nunca me pediu em casamento e, depois de 10 anos perde a piada. Numa crónica próxima vão perceber porquê. Não me vou centrar apenas em mim. Desta vez, as crónicas vão ter outras (e outros) protagonistas. Como será de esperar, o móbil continuam a ser as relações entre homens e mulheres e, tendo em conta a evolução dos tempos e a discussão política do momento, relações entre pessoas do mesmo sexo.

O que me move é sempre o mesmo. Não é o dinheiro. Curiosamente é o amor.